quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Flocos

E a história se repete. Os cacos (que antes tinham se amontoado em um remendo qualquer) se quebraram mais uma vez. As lágrimas rolaram pelas minhas bochechas, meus batimentos aceleraram e, no final das contas, tudo o que pude sentir foi o calor que meu corpo exalou. Calor de medo, calor de mágoa, calor de culpa. Medo por desconhecer o futuro; mágoa pela intensidade da dor; e culpa por ter deixado tudo chegar até aqui. O coração desconhece as razões da sanidade, não é mesmo? É tudo intenso demais, vivo demais. E, talvez, por ter vivido tanto, eu tenha acabado morrendo. Morrendo por dentro.
Pois morri quando senti meus olhos fundos, meu coração pesado e minha alma perdida. Morri quando meus olhos enxergaram claramente a verdade e meu coração sofreu de uma vez só todo o acúmulo que eu vinha mantendo dentro de mim há tanto tempo. Fotos, memórias, acontecimentos. Sorrisos, abraços, beijos. Se amor não se esquece... imagina a dor. Dor que vem em forma de avalanche. Avalanche que desgasta, que comprimi e que destrói. Avalanche que não tem hora pra chegar e, muito menos, para ir embora. Avalanche que corrompe as veias da vida e impede qualquer felicidade de fluir por dentro de nós. Avalanche desgraçada, eu diria.
Com o tempo, felizmente (ou não), e por força do destino, ela, avalanche, vai se deteriorando. Aos poucos, pequenos flocos de neve vão se formando e aquele turbilhão de pensamentos e sentimentos se tornam parte de uma lembrança que nós, infelizmente, não gostaríamos de carregar conosco. Flocos que, mesmo pequenos, se tornam um peso. Flocos que esmagam, furam e arranham. Flocos que sufocam, incomodam e violam. Flocos que pressionam todo e qualquer amor que ainda exista aqui e aí. Flocos que retiram a paz, o sorriso no rosto durante o dia e a consciência limpa ao se deitar no travesseiro à noite. Flocos que tiram o sono e abrem espaço para um milhão de incertezas e dúvidas. Flocos que, aos poucos, apagam o seu brilho, o meu brilho, o nosso brilho. Apagam o brilho da estrelinha que sempre existiu aí dentro do seu coração (e dentro do meu também). Estrelinha que iluminou boa parte da escuridão que se fez presiente em você, em mim, em nós. Mas a pilha não dura para sempre, não é mesmo? Uma hora a luz apaga e o que resta não são os que os olhos veem, mas o que o coração sente. E, pra variar, depois de tanta tempestade, só resta chuva. Flocos malditos, eu diria. E mais maldito ainda quem os colocou aqui (e aí). Mas a vida é injusta, não é, meu caro? Injusta por transformar em seco, o fluido; em sujo, o limpo; e em vilão, o herói. Por que, quem sabe, não tenha sido eu a culpada, não é? Pois, com toda a certeza, fui acusada pelo tribunal que eu mesma criei; pela vida que eu mesma escolhi viver e (por mais que me doa dizer), quem sabe, pelo amor que criei. E, então, que a sentença seja dada e que eu cumpra a pena: que mais flocos caiam sobre mim. Se proteja dos resquícios, o tempo está ficando feio.


~Letras no Céu (2015)

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Conto de Fadas

  A caminho de casa, depois de um longo dia de trabalho, passei por aquela velha loja de artigos usados. Todos os dias me deparo com ela, mas, para falar a verdade, é como se não existisse para mim (já que nada dali me fascina ou me chama a atenção). Mas hoje foi diferente. Algo estava perturbando o meu juízo, me tirando do sério; era como se alguma força oculta me impulsionasse a entrar naquele lugar, descobrir coisas novas, viajar por terras distantes, e eu não tinha a mínima ideia do por quê. Porém, como nunca se deixa de ouvir a voz imponente do coração, entrei. Meus olhos percorreram as paredes descascadas pelas péssimas condições a que foram submetidas e as cadeiras surradas pelas longas décadas que se passaram. Era tudo tão pequeno, mas tão majestoso ao mesmo tempo. Era como se, ao passar por aquela pequena porta, um mundo novo se abrisse; algo diferente daquele estresse e correria do dia a dia; um lugar onde eu podia pensar, me acalmar e ver a vida como ela (realmente) é. Ali, tudo tinha o seu lugar, espaço e -sem dúvida- tempo. Em meio aos meus devaneios, só fui perceber minutos depois um casal de namorados parado em frente ao balcão de pagamento; e, como em uma cena de filme, algo me chamou a atenção: a felicidade intensa e aparente que transbordavam pela alma. Sim, alma.
  Mais uma vez me pus a pensar: "Como algo comprado aqui poderia fazer alguém feliz? Um artigo usado, descartado por um terceiro nunca poderia servir como meio para se atingir o bem estar e alegria.". Procurei respostas à essas tão novas perguntas, mas tudo o que encontrei foram mais nadas e vazios. Contudo, como minha avó sempre me disse, meu sexto sentido é forte e decidi permanecer para assistir, com meus próprios olhos, o final do espetáculo (que eu sabia que ia existir). 
  Terminada a estada na loja, o casal se dirigiu a um pequeno banco de praça que ficava poucos metros da saída do estabelecimento. Suas mãos não se soltaram um minuto sequer e seus olhos conseguiam transmitir a mais pura e sincera emoção. Eu realmente não estava entendendo nada. A admiração que sentiam um pelo outro e o sentimento que transpareciam pelas suas expressões apaixonadas, de certa forma, me prendiam àquela tão inesperada cena. Um casal de contos de fada, se quer saber a minha opinião.
 Minha mente, de uma hora para outra, e sem a minha permissão, me levou à outra dimensão.      Lugares obscuros e abandonados pelo tempo. Lugares e época que eu evitava visitar pelo simples medo de (novamente) me magoar. Quando meus olhos se fizeram em lágrimas, algo me trouxe de volta ao presente e, de repente, quando estava quase perdida em minha imaginação (ainda fértil), a menina se pôs a chorar. "Não era possível, como eu poderia me sentir tão conectada à uma completa desconhecida?"- pensei. 
  Das mãos daquele menino, surgiram o mais lindo presente. Uma roupinha de bebê. Uma roupinha de bebê cor-de-rosa se estende em sua mão e, em um ato quase ensaiado, tira de seu bolso esquerdo a surpresa final. Com seu joelho ao chão e a mão de sua amada estendida em sua direção, os dois se abraçam. Lágrimas percorrem suas bochechas que, aos poucos, começam a se confundir com sorrisos largos e felizes. Meu coração estava completamente disparado.
   -"Eu te amo. Para sempre." - diz ele. "Nada é capaz de retirar esse sentimento tão verdadeiro que eu sinto por ti. Você é minha vida.".
  Era como se eu já tivesse escutado aquelas palavras antes. E foi aí que a minha ficha caiu. Com tantas complicações e problemas, eles se mantiveram unidos e firmes contra qualquer obstáculo que pudesse atrapalhá-los. E, em meio à tantas imposições da sociedade, que cismava em dizer que não tinham nada, eles, sim, tinham tudo. Amor. Amor era (e ainda é) o único combustível que eles precisavam para se manterem vivos e felizes. A única razão por continuarem tentando. Eles, sim, viviam. Viviam da forma mais pura e sincera. O resto (os ganhos) viria com o tempo, com seus esforços, batalhas e lutas. Nada vem fácil, precisa-se merecer. E eles mereciam. E eu, que sempre tive tudo, instantaneamente me julguei vazia e pobre. Pobre de espírito, de alma e de vida.
  E agora eu precisava correr. Correr contra o tempo. E corri. 
  Para onde eu fui? Ora, eu fui atrás do meu conto de fadas.


~Letras no Céu (2014/2015)